Domingo, 26 de Fevereiro de 2006
As escadas da tia Bondeira

Imagens que não mais se repetirão.

Quando nos primeiros anos da minha estadia por Lisboa e eu regressava à minha terra, encontrava naquelas escadas a cara sorridente de uma das minhas maiores amigas dos tempos de criança. A tia Bondeira.

Do meio das suas rugas velhotas, espreitavam sorrindo sempre, a vivacidade dos seus olhos a observar-me, a pressa em levantar-se e o estender dos seus braços cansados na minha direcção e as palavras carinhosas. «Ventor, estás um moçatão»!

 

 

Eu subia os poucos degraus das escadas e voltava-me, como se estivesse a jogar à macaca e ela ria-se com o jeito que nós, rapazes, tínhamos para ganhar às miúdas. Hoje posso dizer que as suas escadas eram as escadas da rebeldia! Era ali que nós nos formávamos todos os dias. Os homens desciam da tasca do Carrasco com um grão na asa e nós ouvíamos as suas palavras mais destemidas para a época e para a rapaziada que andava lá pelo Senhor da Paz, na escolinha, pela qual as nossas professoras tão bem velavam. Pela escola e por nós!

 

 

 

Ali era o ponto de encontro de toda a gente que se dirigia a Bordença e à Assureira de manhã e o ponto de encontro, no regresso, à noite. Ali as mães apressadas pegavam os filhos, pelo lusco-fusco, para os fazer regressar a casa e a expressão mais usada. «Oh, mãe, só mais um bocadinho». Enquanto a luz do dia iluminava tinha-se sempre algo para brincar!

 

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O tio António e o Manel

 

 

As escadas da tia Bondeira estão tapadas por uma betoneira. Na tal pedra está sentado o Manel do Cachês e em pé, de olho no passarinho, um velho passarinho, o tio António de Ramil

 

«Tá bem, só enquanto eu faço o caldo»!

Ali, naquele ponto de encontro, à partida e à chegada desses mundos, abraçavam-se na despedida e no reencontro. Comparável, só a Tasca do Carrasco, porque era lá que se bebia o último e o primeiro copo! Ali no fundo das escadas, havia e há, uma pedra que faz de banco. Ali, sentados nessa pedra, eu vi, pela última vez, alguns amigos. Naquelas escadas choraram-se tristezas e cantaram-se alegrias, porque por elas passavam todas as saídas e todas as chegadas, com trajecto pelo Eirado.

 

 

Só havia uma maneira de eu irritar a tia Bondeira. Ela tinha uma figueira (já não existe) que ultrapassava o muro da horta para o caminho e eu tirava-lhe alguns figos. Não se irritava por eu lhe tirar os figos, mas por eu os tirar e gozar com a minha habilidade. Era uma maneira de ela deixar de rir e eu costumava dizer que, se me der na gana, ponho quem quer que seja do avesso. Nem a tia Bondeira escapava e ninguém gostava dela mais que eu.

 

 

 

Agora vem o Carnaval. Em Adrão já não há quem brinque ao Carnaval. Não está lá ninguém e os que poderão estar, estão velhos e coxos. Mas era pelo Carnaval que eu desafiava os «Velhos».

Os velhos eram homens que se mascaravam com as máscaras mais feias que houvesse, vestiam-se de velhos com umas roupas velhas e rotas e colocavam nas costas umas marrecas de trapos e, à cintura, um pedaço de palha seca de centeio que seria queimado perto do fim da paródia. Eles entravam pelo meio das pessoas a arder (neste caso, na Eira de Além e as escadas eram as da tia Saloia) e em grande correria em direcção ao rio onde apagavam o fogo que transportavam.

 

 

Mas pior que isso tudo era baterem nos rapazes. Era da praxe! Quanto mais lombo os rapazes tinham mais pancada levavam e então a moda era fugir. Mas fugir só, não teria interesse, pois assim não haveria paródia. Era preciso também, procurar o confronto. Bastava chamar velho ao mascarado para se desencadearem as hostilidades e eu era especialista nisso. A correr ninguém me apanhava! Era esse o meu trunfo.

 

 

Uma vez entrei pela casa da tia Bondeira dentro e saltei para a Horta escondendo-me, entre as couves-galegas, junto à figueira. Tudo andava à minha procura e cheios de medo porque pensavam que eu teria saltado o socalco muito alto que dava para o rego da veiga. Mas olhavam lá para baixo e não viam nada. Saltei o muro para o caminho e fugi em direcção ao Cabo do Eido e não havia velho que me apanhasse.

 

Outra vez havia um baile, à noite, e os velhos impuseram a sua vontade. Os putos, nessa noite, não dançariam. Três putos resolveram apedrejar a porta da casa do baile e ninguém saía lá de dentro. Até que paramos! Depois foi o bonito e o feio. Tivemos de fugir e de nos esconder. Mas fomos encontrados e o terror de todos os velhos foi em minha perseguição pelos Outeiros abaixo, mas eu não tinha medo de nada e entrei nos campos iluminados pela minha amiga Diana. Eu sabia que o velho era um medricas que tinha medo das almas do outro mundo e levei-o o mais longe possível.

 

 

Quando se viu só, já depois da meia-noite, ele gritava pelo Ventor para aparecer que não lhe fazia mal. Mas o Ventor estava no seu domínio. Conhecia os campos como as palmas da mão e sabia que o adversário se borrava todo só a pensar nas almas do outro mundo. Aquela foi a maior vitória da minha vida. Gritei-lhe: «vai à frente que eu vou atrás de ti e assim os espíritos não te fazem mal»! E ele foi, parecia um cordeirinho! Que Deus te tenha lá no céu, Manel.



publicado por Ventor às 10:40
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2005
Olá, amigos

 

Hoje estive convosco e apenas eu e vós estivemos presentes, por longo tempo.

Depois chegaram aqueles que vos guardam e vos honram para substituir os que vos guardavam e vos honravam. Os seus passos, no chão de pedra, faziam-me lembrar os vossos passos, a sua galhardia fazia-me lembrar a vossa, mas tudo está diferente. Nós tínhamos alma! De qualquer maneira eu vi-os render a guarda, a vossa guarda e, acredito que o sentimento deles, desta nova juventude que substituiu a nossa, seria igual ao meu, com a diferença de que eu, tal como vós, estive lá, no terreno, no ar, e sulquei os nossos mares!

 

Isso, só por si, leva-me a pensar que nada é como dantes! Nós, os que ficamos, choramos os companheiros que partiram antecipadamente, conhecemos as suas agruras e sabemos como dói! A dor da perda em combate é terrível, a dor por nos deixarem é enorme, a dor dos que ficaram, dos vossos familiares, ainda será, certamente, incomensurável. Por isso, de vez em quando eu desfilo perante a vossa memória e não vos esqueço. Sempre que posso eu presto-vos a minha homenagem, simples, singela, mas cheia de dor por não vos poder ter comigo, por não voltarmos a beber os nossos scotches em tempo de paz, como os bebemos em tempos de guerra. Assim para os que não conhecem, deixo aqui o vosso monumento, para a eternidade e para que ninguém esqueça todos aqueles que deram tudo que tinham por nada.

 

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 Recordar-vos e honrar-vos, é obrigação de todos

 

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Olá, Alf. Paixão

 

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Olá Costa

 

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Olá, Major Rolando Mantovani! Olá a todos os que fazem parte do Mural

 

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Esta é a chama que se pretende perene

 

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Esta é a bandeira que serviram e pela qual tudo deram

 

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Este é um troço do grande mural

 

 

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Aqui, é o centro do vosso (nosso) monumento

 

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 Por aqui espreitamos a nossa tristeza

 

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Eles são nossos companheiros de caminhada - outras caminhadas!

 

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Estes são pormenores do monumento com que pretenderam homenagear-vos

 

Ele é uma das minhas salas de visitas, desta nossa bela Lisboa e é aí que eu vos mostro a minha presença, mas estou sempre convosco. Agora vai passar por nós e por vós, mais um Natal e mais uma vez eu verterei por todos vós mais uma lágrima de dor recordando os dois Natais que passamos juntos nas lindas terras de África. Seria lindo eu acreditar na esperança de nos voltarmos a encontrar nesse local a que chamamos Céu! Eternamente convosco, Ventor



publicado por Ventor às 00:16
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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2005
As abelhas

Quando era pequeno, íamos tomar banho ao Rio da Leira. A rapaziada toda, desde os mais velhos aos mais caçapinhos, seguíamos em fila indiana, ao lado das formigas e, comportando-nos como elas. Mas se as formigas não nos faziam mal e até, por vezes, seriam esmagadas debaixo dos nossos pés, já com as abelhas era diferente!

 

No Rio da Leira, tanto quanto me recorde, apenas o ti Brasileiro, o avô da minha prima Rosa Caneira, do Joaquim e da Fátima, tinha colmeias. As colmeias eram feitas com cortiços, feitos da cortiça dos sobreiros. O ti Brasileiro, tirava a cortiça aos sobreiros, cortando apenas num lado, e depois a cortiça era extraída em forma de cilindro. Um corte em baixo, outro corte em cima, à distância pretendida e entre esses dois cortes, horizontais, um corte na vertical.

 

Depois ele ficava com o cortiço praticamente feito. Mas no mês de Maio, eu lá via o ti Brasileiro todo armadilhado a apanhar os enxames de abelhas que lhe fugiam ou outros que de mais longe, vinham formar-se nos ramos dos carvalhos com as abelhas encavalitadas umas em cima das outras em forma de cacho. Às vezes, eu próprio o informava onde tinha visto um enxame, e lá ia ele, todo lampreiro apanhá-lo! Era uma boa cooperação que me valia uns bons favos de mel, na devida altura e alguns frascos de mel pelo ano fora.

 

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Eram bastantes as colmeias que o ti Brasileiro tinha no Lume da Leira

 

Mas do que eu nunca mais me esqueço, é do som das abelhas a voar no meio daqueles cortiços todos, ou então das abelhas que iam à procura de matéria-prima para levarem para as colmeias. O caminho que levávamos para o poço negro, durante todo o verão, seguia pelo meio dos campos e quer pelo rio acima, ou nos campos junto às águas das regas que corriam pelo caminho, só se viam abelhas e se ouvia o seu som característico.

 

 

 

 

Eu sentia inveja quando via o ti Brasileiro especado no meio das colmeias a tentar apanhar os lagartos que ali se instalavam a tentar apanhar as abelhas e não eram poucas! Eles esmeravam-se todos a apanhar as abelhas e o ti Brasileiro esmerava-se todo a apanhá-los a eles.

Por vezes, não muitas, porque as abelhas não são parvas, lá aparecia algum do nosso maralhal, ferroado pelo cu da abelha e a dizer mal da vida e insultá-las com os palavrões mais ousados dignos de ganhar o prémio da malvadez! Outra especialista a apanhar abelhas, era a raposa. Ela descia por entre os carvalhos e de repente estava infiltrada no meio dos cortiços a fazer os seus estragos.

 

O ti Brasileiro, tal como o meu amigo Chica, sabiam dizer-me para não me mexer junto das abelhas e diziam-me, sem o sabermos, na altura, que esse seria o melhor método para a formação de um grande homem estátua! Mas eu não tinha jeito para isso e mexia-me bem! Eu penso mesmo que as abelhas não tinham vontade nenhuma de me perseguir, pois se tivessem, estariam fartas de me ferrar e apenas uma vez uma me ferrou, estando eu bem quietinho, de rabo para o ar a segurar uma boa truta debaixo de uma rocha, no rio. Até parece que ela me quis dizer para deixar a truta, pois foi o que aconteceu. A malvada foi ferrar-me numa nádega e numa altura que não o devia ter feito, pois eu estava bem quietinho! Haviam mais abelhas em Adrão, mas ninguém tinha tantas, e tanto mel, como o ti Brasileiro. Quem me dera que fosse possível a vida fazer-me repetir os belos tempos que nunca esquecerei.



publicado por Ventor às 20:23
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Domingo, 3 de Julho de 2005
Força Aérea Portuguesa

Parabéns FAP pelos teus 53 aninhos, feitos hoje.

Eu sou um pouco mais velhote, mas continuamos de mãos dadas, com os pés assentes na terra e olhando o céu.

 

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Um companheiro das minhas caminhada por terras de África

 

Ele cabe muito bem nos meus Trilhos de Memória.



publicado por Ventor às 22:14
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Sexta-feira, 10 de Junho de 2005
Dia de Portugal

10 de Junho, era o dia de Portugal!

Hoje não sei se ainda é! Sabem porque? Cada vez me parece mais o dia do "oportunismo"! Se alguém quiser fazer a retrospecção que eu já fiz, mas guardei para mim, porque senão ... Bom! Não acreditam? Podem crer! Já ouve quem ameaçasse os blogs e eu não quero fazer nada para isso.

Mas sempre poderei dizer alguma coisa. Ouço o povo na Rádio, na Televisão, na Rua, no café, ... e julgo que, pelo menos, por enquanto, só uma coisa safa a geração política que resultou da Abrilada de 1974! Sabem o que é? Adivinhem!

Se não adivinharem depois eu digo-vos! Mas temos de reconhecer que todos eles se pavoneiam sugando o suor do povo. Todos eles de um extremo ao outro, se pavoneiam enquanto apenas e só nos mataram a única coisa que ainda poderíamos ter ... A Esperança! Até essa nos levaram!



publicado por Ventor às 22:09
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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2005
A Sonhadora Prossegue

Ela aí vai, a nossa Sonhadora, rio abaixo, em mais uma caminhada.

Logo à saída do poço onde se encontrava retida, o rio alarga, por charcos quase estagnados, e com muitos calhaus rolados. Nos tufos de carriço, que por ali se encontram, continuavam a circular libelinhas acastanhadas, tira-olhos amarelos e negros com asas translúcidas, mas por cima daquelas poucas águas quase paradas, circulavam, sobretudo, as libelinhas azuis, de um azul vivo, aquelas que eram da minha preferência. Naquele local, o rio era largo e tinha uma lavoura de cada lado ao cumprimento das margens, permitindo uma grande visibilidade em toda a extensão. Também haviam charcos onde as trutas tentavam sobreviver e neles a nossa Sonhadora tinha tempo para rodopiar e perder-se a apreciar as paisagens que das duas encostas se debruçavam sobre o rio.

Era o rio a que chamávamos do Curral das Cabras. Na lavoura da margem esquerda, que também era regada com a água do rego da Assureira, junto ao muro que cercava a lavoura e ao lado do qual seguia o caminho para acompanhar o rego, ficava uma parte de mato muito variado, com silvas, salgueiros, escambrões, vidoeiros e claro, não deixaria de estar ali um dos encantos do Ventor. Eram duas aveleiras! Estas aveleiras, a quem ninguém ligava nada, o Ventor chamava um manjar aos seus frutos, quando cheio de fome, no tempo das avelãs, se dirigia para o "Eido". Eido é uma palavra de origem galega que significa "lar", casa, aldeia, o dormitório principal das gentes que caminhavam pelas Brandas.

Ora a Assureira era uma Branda e o Eido era o local da primazia das gentes, no caso, o lugar da pernoita, onde a sopa se fazia e se comia! Logo mais abaixo, entrava no rio mais alguma água que vinha da corga do Curvação e que era pouco utilizada nas regas dos campos de feno em época de sega, sobrando alguma para engrossar mais um pouco o pequeno caudal. A nossa Sonhadora ia continuando a sua marcha de sonho em sonho e de rocha em rocha, onde espevitava a certeza da sua existência. Nessas alturas, admirava tudo o que o Ventor admirava. A extensa verdura dos carvalhos, dos salgueiros, dos vidoeiros, dos sobreiros, das videiras de estacada que trepavam os arvoredos e serviam de sebes nas divisões das propriedades.

Nessas sebes os passarinhos saltitavam de raminho em raminho e de galho em galho aproveitando os bons momentos que a primavera e o verão proporcionam de grandes cantorias ao desafio. De toda esta beleza, ainda havia outra que complementava este belo mundo - o cheiro. Era o melhor de todos os perfumes que até hoje passaram pelas minhas narinas!

 

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Rio abaixo ao lado dos carvalhos

Os melros de água e os guarda-rios continuavam companheiros na caminhada da nossa gotinha. As trutas e as cobras eram companheiras de desenlaces brutais e o Ventor, na sua passeata ribeirinha, olhava as águas do rio e de vez em quando deparava-se com esta terrível luta da sobrevivência de uns à custa da morte de outros. Era a cobra que apanhava a truta, que apanhava o pássaro, que apanhava o lagarto, alguns grandes sardões que davam luta mas acabavam muitas vezes nas mandíbulas de grandes cobras-rateiras, enquanto na encosta do lado direito, no monte do Curvação se expandiam em voos acelerados, as águias, os milhafres e até, segundo a voz do povo, os velhos açores então a extinguir-se.

Esta bicharada fazia os ninhos nas grandes rochas escarpadas que dos montes marginais desciam abruptamente sobre a garganta escura onde corria de precipício em precipício o rio de Bordença que se dirigia para o fundo da Assureira, onde se encontrava com o rio do Curral das Cabras lá no fundo. No encontro destes dois rios, já apareciam as enguias e nos meus tempos de criança, por estas terras ainda haviam gatos-bravos, gardunhas, lontras...

Nos socalcos dos prados de feno do Curral das Cabras que davam para o rio, existiam cobras rateiras e ou cobras de água que mediam mais de 2 metros e que por vezes eu via aquelas barrigas brancas ou amareladas, sob um dorso castanho, verde ou negro, penduradas e retorcidas sobre os matos descaídos para o rio. Por vezes aquela barriga tinha lá dentro um bojudo ser acabado de engolir. Quando eu entrava naqueles campos de feno, apareciam uma espécie de cobrinhas pequenas a que chamávamos licranços e as pessoas diziam que «mordidela de licranço não tem cura nem descanso».

Tanto bichinho massacrei, e afinal, uma aldrabice que nos contavam, por falta de conhecimento ou para nos atemorizarem com os bichos. Mas as cobras, essas sim, eram o meu terror! Também para haver equilíbrio estou convencido que nos devemos aterrorizar com alguma coisa e comigo a cobra pegou de estaca! Imaginem uma cobra e eu, a fugirmos cheios de medo um do outro, até parecia que estávamos em despique a ver qual o primeiro a chegar ao rio!

De uma vez, corri tanto que saltei para um poço escuro e ao sair debaixo da água, vejo a cobra a passar ao meu lado. Até sair da água, achava que iam ficar agarradas às minhas pernas todas as cobras do mundo. Ao meu lado a gotinha apercebeu-se de quão desesperado eu estava com tanto terror! Mais abaixo desse poço negro, eu e a gotinha, olhávamos um belo carvalho pendurado sobre o rio e ali outro poço onde, num belo Inverno anterior, eu apanhava trutas com a minha varinha de salgueiro, uma linha e um anzol. Só com esse anzol que eu tratava como se fosse de ouro, pois não tinha outro, apanhei imensas trutas e a minha encomenda de anzóis que fiz ao meu amigo Carrasco, nunca mais chegava.

Nesse Inverno, com a neve na serra, ao tirar uma truta que havia ficado mal presa, ela saltou fora e ficou no rio e o anzol preso num galho do carvalho. Como não tinha mais anzóis, fui buscar uma machada para cortar o galho do carvalho, mas a machada escapou-se e foi cair no meio do rio. A água estava gelada, muita dela vinha da neve derretida, mas eu tinha de ir buscar a machada, porque fazia falta, para conseguir o anzol e para outras tarefas. Mergulhei no rio tirei a machada e depois parecia um cavalo selvagem a correr no meio das ervas para não arrefecer e secar.

E assim eu passei maravilhosos anos da minha vida de criança, numa terra de sonho. Esse ano foi o último ano de verdadeiras alegrias naturais e puras do vosso amigo Ventor. Nesse ano a gotinha seguiu rio abaixo à procura do seu mundo, do seu destino e eu já sonhava com o meu. Seguiu em direcção a Soajo, passando pelo moinho da Trapela, desviou-se do rego que seguia para regar os campos de Soajo com as águas trazidas pelo rio de Bordença.

Caiu para o Poço Negro o poço que para os de Soajo era e é como uma piscina cheia das águas límpidas que desciam das montanhas de Adrão. Girou em volta do grande poço e depois encaminhou-se para entrar no rio Lima onde veio a encontrar outras grandezas, cada vez maiores e se encaminhou para o mar. A minha amiga gotinha despediu-se de mim para sempre. Eu não me canso de ver, sempre que posso, as gotinhas que caminham na descida do meu rio, mas nunca mais poderei seguir aquele nosso trajecto!

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Hora de partir para o Eido, à despedida do meu amigo Apolo



publicado por Ventor às 15:26
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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005
A Sonhadora Prossegue

Ela aí vai, a nossa Sonhadora, rio abaixo, em mais uma caminhada.

Logo à saída do poço onde se encontrava retida, o rio alarga, por charcos quase estagnados, e com muitos calhaus rolados. Nos tufos de carriço, que por ali se encontram, continuavam a circular libelinhas acastanhadas, tira-olhos amarelos e negros com asas translúcidas, mas por cima daquelas poucas águas quase paradas, circulavam, sobretudo, as libelinhas azuis, de um azul vivo, aquelas que eram da minha preferência. Naquele local, o rio era largo e tinha uma lavoura de cada lado ao cumprimento das margens, permitindo uma grande visibilidade em toda a extensão. Também haviam charcos onde as trutas tentavam sobreviver e neles a nossa Sonhadora tinha tempo para rodopiar e perder-se a apreciar as paisagens que das duas encostas se debruçavam sobre o rio.

 

Era o rio a que chamávamos do Curral das Cabras. Na lavoura da margem esquerda, que também era regada com a água do rego da Assureira, junto ao muro que cercava a lavoura e ao lado do qual seguia o caminho para acompanhar o rego, ficava uma parte de mato muito variado, com silvas, salgueiros, escambrões, vidoeiros e claro, não deixaria de estar ali um dos encantos do Ventor. Eram duas aveleiras! Estas aveleiras, a quem ninguém ligava nada, o Ventor chamava um manjar aos seus frutos, quando cheio de fome, no tempo das avelãs, se dirigia para o "Eido". Eido é uma palavra de origem galega que significa "lar", casa, aldeia, o dormitório principal das gentes que caminhavam pelas Brandas.

 

Ora a Assureira era uma Branda e o Eido era o local da primazia das gentes, no caso, o lugar da pernoita, onde a sopa se fazia e se comia! Logo mais abaixo, entrava no rio mais alguma água que vinha da corga do Curvação e que era pouco utilizada nas regas dos campos de feno em época de sega, sobrando alguma para engrossar mais um pouco o pequeno caudal. A nossa Sonhadora ia continuando a sua marcha de sonho em sonho e de rocha em rocha, onde espevitava a certeza da sua existência. Nessas alturas, admirava tudo o que o Ventor admirava. A extensa verdura dos carvalhos, dos salgueiros, dos vidoeiros, dos sobreiros, das videiras de estacada que trepavam os arvoredos e serviam de sebes nas divisões das propriedades.

 

Nessas sebes os passarinhos saltitavam de raminho em raminho e de galho em galho aproveitando os bons momentos que a primavera e o verão proporcionam de grandes cantorias ao desafio. De toda esta beleza, ainda havia outra que complementava este belo mundo - o cheiro. Era o melhor de todos os perfumes que até hoje passaram pelas minhas narinas!

 

Carvalhos.jpg

 

Rio abaixo ao lado dos carvalhos

 

Os melros de água e os guarda-rios continuavam companheiros na caminhada da nossa gotinha. As trutas e as cobras eram companheiras de desenlaces brutais e o Ventor, na sua passeata ribeirinha, olhava as águas do rio e de vez em quando deparava-se com esta terrível luta da sobrevivência de uns à custa da morte de outros. Era a cobra que apanhava a truta, que apanhava o pássaro, que apanhava o lagarto, alguns grandes sardões que davam luta mas acabavam muitas vezes nas mandíbulas de grandes cobras-rateiras, enquanto na encosta do lado direito, no monte do Curvação se expandiam em voos acelerados, as águias, os milhafres e até, segundo a voz do povo, os velhos açores então a extinguir-se.

 

Esta bicharada fazia os ninhos nas grandes rochas escarpadas que dos montes marginais desciam abruptamente sobre a garganta escura onde corria de precipício em precipício o rio de Bordença que se dirigia para o fundo da Assureira, onde se encontrava com o rio do Curral das Cabras lá no fundo. No encontro destes dois rios, já apareciam as enguias e nos meus tempos de criança, por estas terras ainda haviam gatos-bravos, gardunhas, lontras...

 

Nos socalcos dos prados de feno do Curral das Cabras que davam para o rio, existiam cobras rateiras e ou cobras de água que mediam mais de 2 metros e que por vezes eu via aquelas barrigas brancas ou amareladas, sob um dorso castanho, verde ou negro, penduradas e retorcidas sobre os matos descaídos para o rio. Por vezes aquela barriga tinha lá dentro um bojudo ser acabado de engolir. Quando eu entrava naqueles campos de feno, apareciam uma espécie de cobrinhas pequenas a que chamávamos licranços e as pessoas diziam que «mordidela de licranço não tem cura nem descanso».

 

Tanto bichinho massacrei, e afinal, uma aldrabice que nos contavam, por falta de conhecimento ou para nos atemorizarem com os bichos. Mas as cobras, essas sim, eram o meu terror! Também para haver equilíbrio estou convencido que nos devemos aterrorizar com alguma coisa e comigo a cobra pegou de estaca! Imaginem uma cobra e eu, a fugirmos cheios de medo um do outro, até parecia que estávamos em despique a ver qual o primeiro a chegar ao rio!

 

De uma vez, corri tanto que saltei para um poço escuro e ao sair debaixo da água, vejo a cobra a passar ao meu lado. Até sair da água, achava que iam ficar agarradas às minhas pernas todas as cobras do mundo. Ao meu lado a gotinha apercebeu-se de quão desesperado eu estava com tanto terror! Mais abaixo desse poço negro, eu e a gotinha, olhávamos um belo carvalho pendurado sobre o rio e ali outro poço onde, num belo Inverno anterior, eu apanhava trutas com a minha varinha de salgueiro, uma linha e um anzol. Só com esse anzol que eu tratava como se fosse de ouro, pois não tinha outro, apanhei imensas trutas e a minha encomenda de anzóis que fiz ao meu amigo Carrasco, nunca mais chegava.

 

Nesse Inverno, com a neve na serra, ao tirar uma truta que havia ficado mal presa, ela saltou fora e ficou no rio e o anzol preso num galho do carvalho. Como não tinha mais anzóis, fui buscar uma machada para cortar o galho do carvalho, mas a machada escapou-se e foi cair no meio do rio. A água estava gelada, muita dela vinha da neve derretida, mas eu tinha de ir buscar a machada, porque fazia falta, para conseguir o anzol e para outras tarefas. Mergulhei no rio tirei a machada e depois parecia um cavalo selvagem a correr no meio das ervas do feno para não arrefecer e secar.

 

E assim eu passei maravilhosos anos da minha vida de criança, numa terra de sonho. Esse ano foi o último ano de verdadeiras alegrias naturais e puras do vosso amigo Ventor. Nesse ano a gotinha seguiu rio abaixo à procura do seu mundo, do seu destino e eu já sonhava com o meu. Seguiu em direcção a Soajo, passando pelo moinho da Trapela, desviou-se do rego que seguia para regar os campos de Soajo com as águas trazidas pelo rio de Bordença.

 

Caiu para o Poço Negro o poço que para os de Soajo era e é como uma piscina cheia das águas límpidas que desciam das montanhas de Adrão. Girou em volta do grande poço e depois encaminhou-se para entrar no rio Lima onde veio a encontrar outras grandezas, cada vez maiores e se encaminhou para o mar. A minha amiga gotinha despediu-se de mim para sempre. Eu não me canso de ver, sempre que posso, as gotinhas que caminham na descida do meu rio, mas nunca mais poderei seguir aquele nosso trajecto!

 

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Hora de partir para o Eido, à despedida do meu amigo Apolo



publicado por Ventor às 22:31
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Sábado, 15 de Janeiro de 2005
Rodopiando

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Muitas gotas de água fazem o paraíso

A gotinha Sonhadora, ali ficou rodopiando lentamente, muito lentamente, a levar encontrões daquelas cabras-cegas, que tanta confusão, faziam ao Ventor. Ali se deixou ficar, levando encontrões das cabras-cegas, ao mesmo tempo que tentava esquivar-se, por entre duas pequenas lajes, que entre si era permitido entrar e sair alguma água. A água que ia entrando fazia uma minúscula ondulação que ia empurrando para o meio dos penedos a água residual e por vezes a que tentava entrar era a primeira a sair.

Foi assim que a nossa gotinha ficou ali entrincheirada. Também lá estavam entrincheiradas algumas trutas que o Ventor não ligava devido à dificuldade de apanhá-las em buracos profundos entre e debaixo de grandes rochas. Mas no lado, contrário ao local da gotinha Sonhadora, estava uma pequena leira encravada entre o rio e o rego que transportava a água para a Assureira. Do lado do rio dois potentes vidoeiros e mais uns arbustos do meio dos quais pendiam sobre o rio uma grande sebe de silvas e salgueiros. Do lado do rego uma sebe de silvas e escambrões, mais uns salgueiros, e entre a sebe e o rego ficava o caminho para passagem das pessoas e dos animais.

Nessa pequena lavoura, a produção do ano era batata. As batatas estavam grandes e também precisavam de ser regadas, trabalho que o Ventor sabia fazer muito bem e assim dava uma boa ajuda. Mas as batatas não eram só regar! Era necessário lutar contra um inimigo temível, luta em que o Ventor era um "grande especialista"! Essa luta era contra o ESCARAVELHO da batata. Alguns já tinham asas, mas a maioria eram larvas. Eram estes bicharocos muito feios, principalmente as larvas, que o Ventor apanhava e transportava sobre ramadas de fetos lançando-as ao poço.

A gotinha Sonhadora, espreitava o Ventor de rabo para o ar, muito concentrado que até parecia que tentava encontrar no meio do batatal, pepitas de ouro. Depois, o Ventor olhou, lá de cima, o poço a que chamávamos o portinho e achou que também devia de bloquear ali as águas para permitir que as trutas que se encontravam do lado da nossa gotinha tivessem água fresca e fosse possível a intercomunicação entre os dois corpos do poço. No meio do rio, na zona mais baixa entre duas pedras, passava a pouca água que escorria rio abaixo. Sobre essas pedras, as pessoas davam o salto sobre as águas para passar, e nesse ano, quase não havia água para alimentar o rio.

Então o Ventor colocou bem encaixadas, entre as pedras da passagem umas pedras bem grandes, e uns torrões, bloqueando assim, na parte mais baixa, a passagem das águas fazendo assim aumentar o volume das águas no poço, tornando-o bem maior. À medida que o poço ia enchendo, atirou para lá com a sua colheita de larvas do batatal. As trutas que ali ficaram presas, pouco tinham que comer a não ser alguns insectos que caíssem na água e agora o Ventor presenteou-as com esse repasto.

Escondido á sombra, entre os vidoeiros, via que lá vinham elas apaparicar as larvas vermelhas, agradecendo aos seus deuses aquele dia de fartura, em vez de agradecerem ao Ventor. As trutas durante o verão, no rio com águas baixas, são presa fácil das cobras de água. Mal o poço encheu o que levou bastante tempo, a pequenina passagem tornou-se numa passagem muito maior e assim as trutas começaram a transitar entre as duas porções do poço. As trutas ficaram a ganhar e as cobras de água ficaram a perder. Como o poço engrossou, a possibilidade de se escaparem tornara-se muito maior e eu continuei, sempre que passava ali, a apreciar a sua fuga de um lado para o outro e a sua maior alegria de viver.

Quando algum insecto pousava nos carriços do rio, nos fetos ou nos ramos dos salgueiros que se aproximavam da água, com o poço cheio elas saltavam de dentro da água e conquistavam o seu petisco como se de um grande troféu se tratasse. Depois, ao fazer crescer o poço, consegui algo que não estava nas minhas intenções. Fiz com que aqueles corpos separados, que se comunicavam muito dificilmente, através daquele pequeno vaso comunicante, se tornassem num corpo só e assim a nossa sonhadora espraiou-se mais à vontade naquele já maior corpo de água e viu chegar a sua vez de reiniciar a sua caminhada. Porém, antes disso, teve a ousadia de, sonhando, tentar dizer ao Ventor como seria difícil esquecer aquelas maravilhas todas, pela sua vida fora.

Por entre as pedras da passagem, mas a nível superior, rodopiou e lá seguiu a Sonhadora na procura de novos mundos, mas ainda dentro de domínios do Ventor. Ia iniciar ali a caminhada no troço do rio a que chamamos: - Curral das Cabras. Engraçado, porque 18 anos depois, no mesmo sítio, ainda estavam as minhas pedras, havia outras trutas, na lavoura outras batatas, o poço estava quase vazio porque os torrões tinham ido nas enxurradas dos Invernos, mas as pedras permaneciam, para mim, como um monumento.

Ali, numa demonstração de perícia para o futuro pai do Tomás e o seu primo, ainda crianças, apanhei uma grande truta à mão, mas depois de eles me dizerem para a colocar no gancho de pau, eu limitei-me a dizer: não! Esta teve mãe e pai como nós, que lhe contaram as suas histórias e ela conhece a minha história e eu quero que ela continue a viver. Claro que ficaram muito chateados! Era também um mês de Julho, olhei em volta, com os calções e os ténis todos molhados, e lá estava o vaso comunicante, a permitir a entrada e a saída da água, mas mais água, mas a minha gotinha tal como aquelas todas tinha partido para o seu mundo como eu parti para o meu. Mas ainda vamos ver, mais um troço da sua viagem!

 

ri-moinho.jpg

O Moinho da Ponte

Quando as irmãs da gotinha se juntam em festa, saídas das lágrimas das Fadas de Neptuno e espalhadas pelas montanhas da serra de Soajo, pelos invernos fora, a festa é de arromba e a sua música ouve-se pelas montanhas em redor.



publicado por Ventor às 13:34
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Sábado, 4 de Dezembro de 2004
Desceu o lance!

Ela aí vai rio abaixo, na sua caminhada lenta. Ainda vai ter mais regos, mas estão desactivados. Por ali já não há milho, a água não abunda e está na altura de apanhar os fenos. As águas já não vão regar mais até ser apanhada a pouca que escorrendo sempre de fonte em fonte, se juntam ao fundo da Assureira com as que vêm do rio de Bordença. Lá ao fundo vai haver mais uma leva de água mas para as gentes de Soajo que também estão ávidas das sobras que descem desde Adrão e Bordença.

A nossa gotinha, a Sonhadora, logo que sai do poço do moinho do ti Dafonte, afastando-se da leva de água para regar os campos de milho da Assureira, encaminhou-se rio abaixo, mas a água quase não desliza. Cada poço, cada charco, é uma potencial força de retenção. A água rodopia e encosta-se às rochas, aos tufos de carriço, e caminha por entre musgos e limos que algumas pedras ostentam como autêntico troféu de verduras. Encosta num recanto, avança para outro e mais um rego se apresenta à direita da sua caminhada. Ela caminha para o rego, mas o dono da lavoura encontra-se em França e a esposa só e com um filho pequeno, entende que não vale a pena semear milho e deixa o terreno de poulo ou pousio, para dar feno para o gado.

Esse rego servia para regar o milho e agora o feno, mas este está pronto para cortar e a pouca água que segue o rego é, logo mais abaixo desviada do rego para o rio. Nesse entretanto, o vosso amigo Ventor, apanha nos poços, quase sem água, algumas trutas que ainda vagueiam nos lodos e esperam uma chuvada que lhes traga a esperança de continuar vida. E chegada ao fim do rego, alguma água sai para o rio, mas entre a saída e o bloqueio da água há cerca de 10 mts de rego, devido à facilidade de bloqueio, onde a água se encosta e continuamente empurrada pela que vem de trás, fica ali como que parada e esperando a oportunidade de um empurrão com mais força das águas que, na próxima descarga dos poços, escorram rio abaixo e lhes dê alento para retomar a sua caminhada. Ali a nossa gotinha, esperando mais uma oportunidade, vai observando o que se passa.

Do lado oposto, está a montanha cuja encosta, junto ao rio, é o campo de treino do Ventor. Chama-se - o Grilo. Ali nos Invernos passados, o Ventor penetra em matos densos à procura das cabras e das vacas que ficavam para trás e era fonte de alimento de um fruto maravilhoso a que chamávamos "peros bravos". Os arbustos que davam esses frutos, lá na terra chamam-lhes "escambrões", e era na base desses arbustos que eram enxertadas as pereiras da Assureira e davam peras maravilhosas. Mas os escambrões são arbustos com grandes picos, acúleos, que quase dá para segurar pendurada uma saca de pão e presunto como aquela que o Ventor levava para o monte.

Mas, e isso eu não tenho dúvidas, porque vi muitas vezes, dava para os tecelões pendurarem cravados nesses acúleos, os pintassilgos que apanhavam e, com a barriga cheia, faziam deles a sua despensa. Eu cheguei a ter esperança de, com a minha fisga, derrubar, um após outro, todos os tecelões que por ali andavam. Não podia ver os meus "pintinhas", tão lindos, espetados nos acúleos dos escambrões!

Os poços eram bem tapados, enchiam de água e, no dia seguinte, o Ventor ia soltá-los, para repetir toda a operação do dia anterior. Era uma tarefa que me estava distribuída pela minha mãe, tanto para nós como para a restante família, as minhas tias, e isso, porque sabiam que era uma tarefa árdua, mas que eu gostava e, quando o trabalho é feito com gosto, não custa nada. Era na altura das férias grandes e, na aldeia, as férias eram sinónimo de trabalho. Mas na próxima leva de mais alguma água que espirrava do poço do ti Dafonte, segue rio abaixo e penetra no rego. Ao chegar ao desvio, a força da água volta a sair para o rio e a outra parte penetra até ao fim do rego expulsando as águas residuais anteriores, entre as quais se encontra a nossa Sonhadora.

Mais uma vez ela aí vai, rio abaixo, farta de levar com os tira-olhos (a que chamamos batecus) em cima, de ver aquelas libélulas azuis de que o Ventor tanto gosta, cirandar por ali, pousando, de feto em feto, de silva em silva, ou no salgueiro que cobria as grandes rochas do rio e também de sentir estatelarem-se sobre si as pequenas rãs que saltavam para dentro de água às quais o Ventor dava um beijinho no lombo para lhe darem sorte na vida. De poço em poço ela chega ao poço maior do portinho do Curral das Cabras.

E aí tem mais um azar, ficando na expectativa de uma feliz saída, pois encostou num grande recanto adequado ao bailado das cabras cegas. Enquanto a Sonhadora vai rodando em ciclos nesse recanto, eu vou caminhando, rio abaixo, rio acima, também nos meus sonhos. Talvez um dia vos conte os sonhos completos meus e da gotinha Sonhadora, pois os nossos sonhos não têm fim.



publicado por Ventor às 13:55
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2004
A Sonhadora continua viagem

Já no rio, no poço onde o Ventor tomava banho, por debaixo das lavouras da Veiga, ela sai por entre dois tufos de carriços onde se alimentava, à sombra do sucalco e de um vidoeiro, uma lesma negra, daquelas muito grandes e a Sonhadora, ao roçar-se naquela pele enrugada e viscosa, arrepiou-se toda e foi logo encaminhada para mais uma leva de água que se dirigia ao moinho da Turgueira. O moinho não trabalhava, pois mesmo com o engrossamento dado pela nossa amiguinha, o grupo de triliões de gotas que formavam aquele pequeno caudal não dava energia suficiente para mover a mó. Então passou pelo moinho que apenas lhe serviu para fazer cócegas na barriga mais uma vez. Saiu para outro poço bastante fundo de águas pouco movimentadas e mais uma vez se viu e desejou para sair dali.

Logo de seguida, a corega das Estacas trazia pouca água, mas já permitia mais uns golos para engrossar a pequena caminhada devido às regas. Dava-se o caso de às vezes terem de racionar melhor as águas para permitir moer o milho para fazer farelos para os porcos e farinha mais fina para fazer a célebre broa de milho, o nosso pão.

Rio-turgueira.jpg

 

O rio na zona a que chamamos Turgueira

Mais abaixo, mais um moinho, o moinho de Arriba dos Moinhos, e mais uma passagem de água que ainda não dava para moer. Mais uma escorregadela. Saída do moinho, desce de poço em poço e entra logo noutra levada para o moinho da tia Bondeira. Aqui a escorregadela foi maior e o poço que a recebia era negro devido à fundura. As trutas ali existentes movimentavam-se na caçada dos insectos que caiam na água e a Sonhadora ia-se roçando por aquelas barrigas escorregadias, de um lado para o outro até conseguir sair e mais abaixo entrar noutra leva de água para mais um moinho. Aqui percorre um rego entre silvas tojos e urzes e embate mais uma vez contra o rodízio de madeira e, aos salpicos, todas as gotinhas, de pedra em pedra, prosseguem viagem.

Agora havia mais um trabalho para o Ventor fazer. Como a água era muito pouca devido à secura do verão havia necessidade de tapar os poços ou pequenas barragens para reter a água. Enquanto a Sonhadora perseguia o seu caminho eu caminhava já a seu lado para fechar todos os poços que pudesse para acumular as águas pois, lá mais abaixo, era preciso levar a água para a Assureira onde o milho também precisava de água. Com uma sachola arrancava torrões bem consistentes daqueles em que os carriços cresciam entre as rochas e as raízes davam consistência e conjuntamente com umas boas pedras os poços iam enchendo. Este trabalho era feito pela tarde fora antes de cair a noite. E para que tudo fosse bem feito, começava de cima para baixo.

O primeiro poço estancado e a nossa Sonhadora aprisionada dentro dele. Pensou logo que agora não se ia escapar! Tapei o poço de baixo e outro e outro e por diante e durante a noite os poços iam enchendo todos. De manhã voltava à carga e começava a soltar as águas dos poços de baixo para cima. Mas ainda havia um moinho, por sinal o mais longe da aldeia, era o moinho do ti Dafonte. Era nesse moinho que aproveitando as águas dos poços ainda se podia, durante toda a manhã, e parte da tarde, moer o milho. A nossa gotinha quando se viu aprisionada no primeiro poço, pensou que nunca mais sairia dali. Mas não! Rapidamente se apercebeu que teria de haver continuidade! Mal o poço encheu, ela saltou logo pelo local adequado sem fazer estragos e a nossa Sonhadora adivinhava-se mais uma vez nos caminhos do sonho.

Quando o Ventor chegou de manhã para soltar os poços, começou por baixo e já lá estava a nossa gotinha. Mas as águas que de noite foram escorrendo rio abaixo ao chegar ao poço do moinho do ti Dafonte eram encaminhadas pelo rego da Assureira, mantendo o rego húmido, vertendo depois em locais apropriados para o rio mais lá em baixo e depois as águas dos poços caminhavam céleres até ao seu objectivo final, os campos de milho da terra da saudade.

 A Assureira era uma branda de Adrão. Uma terra rica com bosques de carvalhos, sobreiros, azevinhos, sanguinhos, giestas, silvas, etç. cercados por muros de pedra, a que chamamos bouças e campos onde se produzia desde milho e centeio, muitas uvas e outras frutas, como maçãs, peras, ameixas, pêssegos, figos, etç., mas em anos de seca era o diabo para fazer a água lá chegar. Haviam umas nascentes com pouca água e poças artificiais ou mini-represas que retinham a água para depois soltar e regar certas porções de terras. Mas o grosso da água de rega saía do rio lá longe. Era um rego com alguns kms e o calor e as toupeiras com os buracos que abriam pelo caminho, originavam perdas de água. Então, para chegar água suficiente para a rega, nos anos secos, era necessário represar a água rio acima.

Era um trabalho dos tempos dos meus visavós e havia necessidade de reconstruir esses poços todos os anos, devido aos estragos provocados pelas águas em fúria que o inverno proporcionava. Era um trabalho hérculeo feito pela colectividade. Na reparação, deixava-se na parte mais baixa dos poços um buraco que permitia ser tapado e destapado para reter e soltar as águas. Ao abrir os poços o grosso das águas passavam pela leva de água que se dirigia ao célebre moinho e todos tínhamos uma tarefa a desempenhar. Na Assureira havia quem regasse, no moinho havia quem colocasse o milho e eu soltava as águas retidas, quando as águas eram nossas.

Para além de tapar poços e soltar as águas eu ainda me amanhava na pesca das trutas, um bom complemento alimentício, um bom entretimento e uma brincadeira muito útil. As desgraçadas das trutas ficavam presas nas zonas baixas, em charcos onde se apanhavam à mão. Assim, cumpria a minha tarefa executando um trabalho útil e brincava no rio dos meus sonhos.

Ainda hoje caminho rio abaixo, rio acima, enquanto durmo, porque tal como a nossa gotinha Sonhadora, eu também sonho! Mas a gotinha continua a sonhar e ao chegar ao poço negro do dito moinho, ela revê-se com sorte. O poço é estreito junto ao moinho e a água sai disparada do moinho e entra pelo poço dentro, embatendo no rochedo logo em frente e é impulsionada em sentido contrário, a caminho da levada que se dirige para os campos da Assureira. Mas o poço não é estanque e ali passa a ser uma zona de fartura devida às águas retidas que foram libertas. A nossa gotinha segue em frente impulsionada para a direita pela maior força que seguia à sua esquerda dirigindo-se para a levada, empurrando-a para fora, transbordando rio abaixo.

Num rio nada é completamente estanque, mesmo nas alturas de maior seca. Essa a sorte da nossa gotinha que continua a sua pedalada rumo ao seu objectivo. Numa vida insegura, tal como a nossa, ela e as suas companheiras, cantam laudas ao mundo belo que atravessam. Desde poços com girinos, com trutas salmoníadas, com cobras d'água, com toupeiras d'água, com lavandiscas, minhocas nos baixios, borboletas que ficam presas, de quando em vez, nas teias de aranha que o Ventor destrói à passagem, mas logo elas preparam outra armadilha que lhes dá a sobrevivência e continuidade ao mesmo tempo que até à nossa gotinha metem medo.

Os tira-olhos e outras libelinhas são mais que muitos e vão pousando ao sol nos ramos dos salgueiros e o meu amigo Apolo, algumas vezes, projecta a sua imagem nas águas serenas com um belíssimo cheiro a lodo e a trutas e a nossa gotinha chega a amedrontar-se apesar de tanta beleza. Os guarda-rios, melros d'água, lavandiscas e demais passarada, onde não faltam os meus "pintinhas", são companhia inseparável do Ventor e da nossa Sonhadora.



publicado por Ventor às 09:45
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